Um professor meu certa vez fez um comentário deveras pertinente: “Todo mundo insiste em ver a falta de apoio financeiro à cultura como a sentença de morte a todos os tipos de arte. Bobagem, a arte sobreviveu bocados de tempo com um reconhecimento econômico ridículo! Em toda essa história, é fácil acabar não vendo o que realmente pode vir a ser o assassino: a ausência da crítica”. A arte não é uma via de mão única, uma esteira com seu início próximo aos ouvidos do criador, por onde escorre o líquido criativo de seu cérebro, a encerrar-se no espectador ensopado. O retorno, fundamentado e lúcido, são os restantes 50% (nem mais, nem menos!) responsáveis pela renovação de ânimos cíclica do criador. Em boa parte, uma saudável troca de faíscas.
Então, de que forma podemos traçar um perfil de recepção dos espectadores do cenário artístico-musical que nos circunda, essa outra metade do fazer música? Tudo indica que a cultura da imitação fetichista colonialista não morreu, apenas encontra-se em sua segunda fase. Aos poucos o público parece acordar de um marasmo de bandas cover, começando a exigir trabalhos autorais, mas recebendo esse trabalho tão cheio de sorrisos amarelos e jargões ocos que evidencia-se a ausência de um respeito real: “Essa banda aí só toca música própria, muito bom!” / “Ah, pelo menos os caras estão fazendo, né!” / “Banda autoral independente, tem que apoiar!”. Tapinhas nas costas escondem o real significado desses repetidos clichês que, quando explicitados, revelam sua triste redundância: “Esse aí é um artista que CRIA!”. Opa, mas artista não é justamente aquele que cria? Falo da cultura de imitação fetichista colonialista, anteriormente, pelo fato desses “elogios” serem aceitos somente devido ao recorte geográfico que é feito. Imagine a seguinte situação: seu belo amigo lhe aborda, implorando para compartilhar uma música contigo no youtchub. Ele coloca-a para tocar em seu laptop: uma canção xoxa, sem graça, idêntica a sete mil e quinhentas e trinta e três outras canções xoxas e sem graça que você já ouviu por aí, de *ALGUMA BANDA AUSTRALIANA*. Você lhe diz: “Putz, meu jovem, isso aí é uma canção xoxa e sem graça igual a outras sete mil e quinhentas e trinta e três que eu já ouvi antes!”. Irritado, seu amigo fecha o laptop e, abraçando-o forte contra o peito, brada em defesa da banda recém descoberta: “Pelo menos eles estão fazendo, né!”. Qual o tamanho do menosprezo pelo artista geográfica e socialmente próximo, que torna aceitável o uso desses vazios a seu favor? De forma diretamente proporcional, que tipo de pseudo-patriotismo exige o puro recorte geográfico-social, que obriga o espectador a apoiar e louvar cegamente o artista de sua cidade/região?
Acho que já passou da hora de propagandear o “que cria” e começar a pensar na criação em si, em críticas bem estruturadas sobre o trabalho alheio. Crítica, salientando especialmente aqui, que de forma alguma encontra sinônimos em xingar e falar mal: antes, destrinchar a obra e apontar os pontos fortes por tal lista de razões, e pontos fracos por tal lista de razões. A crítica de arte não é algo dicotômico que opera obrigatoriamente dentro de algum de seus consagrados campos (ou eu dou tantas estrelinhas pra poder vender melhor, ou eu me visto de guru e autoridade e ensino a fazer direito); como artista, não vejo nada de errado em operar no nível de “achismos”, desde que haja método e fundamentação e, mais importante, uma real vontade de colaboração, de recompensar o artista que me entregou parte do seu fogo com parte do meu (a troca de faíscas que menciono anteriormente), de dar ao invés de arrancar: em outras palavras, pagar uma obra de arte com uma segunda.
Dito isso, chega-se agora ao problema da recepção da crítica e da formação de uma cultura voltada a ela. Como já ouvi dos demais companheiros músicos, e já acabei por praticar eu mesmo, às vezes é preciso falar bem de alguma porcaria simplesmente para sobreviver em um meio tão mirrado. Bem, nesse caso, quem é o culpado? Aquele que se esforça a compor um trabalho de crítica completo – que pode muito bem consistir em destruir sintaticamente a música de seu amigo -, ou o artista que não suporta receber opiniões negativas sobre sua criação? Em toda minha vida criativa, penso que recebi somente uma única crítica bem fundamentada. Em minha estadia em New Haven, marquei um almoço com um compositor de Yale para conversarmos sobre música, após presenciar a apresentação de uma peça sua junto a orquestra da universidade. Aproveitei a situação para mostrar-lhe a composição que hoje chama-se “Innmann Lamento”, de minha banda Adam & Juliette. Meu convidado passa a refeição inteira calado, com os fones de ouvido, a tocar os nove minutos de música repetidas vezes, voltando a trechos específicos aqui e ali. Ao final, colocando no prato o cabo da pimenta jalapeño que ele havia deixado por último, descansa os fones ao pescoço e põe-se a falar, sem nunca me encarar nos olhos: “Sua música é líquida… é como essa Coca-Cola aqui. Ela é vazia e solta demais. Nota-se que você quer fazer algo de diferente, mas sem se atrever a sair da sua zona de conforto, dentro da qual você fica dando voltas e voltas. Isso é só um jam, não é? Não é algo realmente sólido. Você parece querer surpreender seu espectador: bem, você não vai conseguir isso sem antes permitir surpreender a si mesmo”. Minha barriga ficou doendo por uma semana. Minha arrogância havia levado-me a acreditar que aquela música era incrível, algo tão bem trabalhado que a única coisa possível a ser dita pelo jovem compositor à minha frente seria “Te esperamos ano que vem na escola de composição de Yale, o maior e melhor reservatório musical do mundo!”… pois bem, não, ela não era tão boa assim, ao menos não para ele.
Agora, a parte importante é que suas palavras não me fizeram gostar menos da música, mas elas de fato me fizeram refletir sobre a parte política do meu processo de criação: me considerava tão mais esperto que meu espectador, achando que poderia lançá-lo surpresas com meus truques na manga, como se, de fato, o eu-artista fosse alguma entidade abençoada em um pedestal. Bem, seja como for, sinto que essa dor de barriga fez infinitamente mais a meus âmbitos criativos do que qualquer “Isso aí, fazendo trabalho autoral!” que tenha passado de um ouvido a outro ao longo dos anos.
Será que, ao invés de insistir em publicar por todos os lados mensagens de auto-ajuda no estilo de “Apoie o cenário musical de sua cidade”, a cena não ganharia um bom empurrão simplesmente ao ouvir verdades, tristes elas ou não? Será tão duro e indigerível pensar que, possivelmente, as pessoas da sua cidade não dão bola pra cena local por de fato não gostar dela? A realidade é que os sorrisos amarelos e tapinhas nas costas encontram seu limite no momento em que aquela banda dos seus vizinhos, que você assistiu no sábado passado e que inclusive compartilhou a foto pra divulgar o evento com alguma mensagem do tipo “Sonzera!”, não é e nem nunca será escolhida para tocar quando você chega em casa do trabalho; pra fazer seus amigos ouvirem ao meio de cervejas e – cof cof – cigarros; pra fazer parte da playlist ‘Caminhada Épica’ do seu iPod. Tudo bem, sem crise, muitas nunca serão; mas a diferença aí é que os artistas responsáveis estão próximos, e se há, realmente, um respeito mútuo presente, então não existem desculpas para não compartilhar com eles as razões pelas quais você, apreciador de música, não fará tais escolhas. Isso dito especialmente àquelas ocasiões em que a potência excede em muito a execução do grupo (“Eles tinham tanto pra ser tão bons!”).
Sim, apoie a banda local: avise-a quando seu trabalho for ruim!
